Domingo, Dezembro 21, 2003
Abro as malas e vou enchendo-as com todo o necessário para a longa viagem...
Seram dois dias na estrada, vendo as árvores passar apresadamente pelo carro, olhar a imensidão da estrada indo sempre em frente conhecendo novas paisagens, respirando novos ares.
Por enquanto vou arrumando as coisas por aqui... a mala, que antes parecia enorme, vai ficando cada vez menor, mais estufada não só de coisas mas também de esperanças, que surge no coração das pessoas esta época do ano.
Apesar de ainda não estar em clima de fim de ano e, muito menos, de Natal, sei que está na hora de renovar os laços de carinho que nos unem às pessoas que estão ao nosso redor... ou mesmo aquelas que estão a uma distância grande suficiente para nos impossibilitar um confortante abraço...
É hora de fazer planos, promessas, ter esperanças de um ano melhor...
Vou viajar, vou rumo ao litoral brasileiro, estou indo para o estado onde o Brasil começou... mas deixo registradas aqui as sábias palavras de Carlos Drummond de Andrade...
Receita de Ano Novo
Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegrama?).
Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
Carlos Drummond de Andrade
Pensado & escrito por MARCELA ORTOLAN - 6:46 PM
____________________
"Estupido, ridículo e frágil é meu coração."*
Em face dos últimos acontecimentos... estou com a sensibilidade a flor da pele.
Desde que me encontro instalada aqui não vou mais a UEL. Não vejo mais seus jardins e respiro seu ar. Não vejo mais estudantes andando apresadamente pelo calçadão enquanto outros deitam-se preguiçosamente em seus bancos de madeira ou em seus verde gramados.
Muitos de meus amigos já foram embora desta bonita cidade e sei que demorarei para retornar a vê-los. Talvez só os veja daqui a três meses.
Chegaram as férias. As tão sonhadas e esperadas férias.
E qual a primeira coisa que me ocorre de fazer nas férias? Sentir saudades do campus, do companheirimo, dos rostos familiares, das aulas.
Sim as aulas que, descaradamente, tenho negligenciado no último mês.
Sinto falta das perguntas curiosas que sempre pronúncio e que, sempre, acredito estarem chateando os demais.
Sinceramente sinto falta dos risos quando alguém faz algo que lhe é caracteristico...
Talvez isso simplesmente venha me mostrar o quanto é difícil ficar sozinho consigo mesmo depois de tanto tempo sem olhar para si. Parar e perceber todas as torturas que tive de inflingir ao meu corpo e ao meu intelecto durante esse tempo...
Talvez eu sinta falta da Marcela que eu fui há dois anos atrás... quando a loucura começou...
Mas sei que muitas coisas boas também vieram...
Eu cresci.
Apenas gostaria que não tivesse sido tão dolorido.
Contudo, ninguém me prometera que a tarefa de crescer fosse fácil...
Mas as vezes sinto que me perdi de mim e, agora no final do processo, ao tentar me reencontrar não me reconheço...
Sou uma completa estranha.
Preciso reaprender... reapreender-me!
"Na solidão de indivíduo
desaprendi a linguagem
com que homens se comunicão"*
*Trechos do poema Mundo Grande de Carlos Drummond de Andrade.
Pensado & escrito por MARCELA ORTOLAN - 3:20 AM
____________________
Sábado, Dezembro 20, 2003
"Acho que sábado é a rosa da semana; sábado de tarde a casa é feita de cortinas ao vento, e alguém despeja um balde de água no terraço; sábado ao vento é a rosa da semana; sábado de manhã, a abelha no quintal, e o vento: uma picada, o rosto inchado, sangue e mel, aguilhão em mim perdido: outras abelhas farejarão e no outro sábado de manhã vou ver se o quintal vai estar cheio de abelhas."
Trecho da Crônica Atenção ao Sábado, Clarice Lispector
Pensado & escrito por MARCELA ORTOLAN - 6:19 PM
____________________
Sexta-feira, Dezembro 19, 2003
"Estupido, ridículo e frágil é meu coração.
Só agora redescubro
com é triste ignorar certas coisas.
(Na solidão de indivíduo
desaprendi a linguagem
com que homens se comunicão)"
Trecho do poema Mundo Grande de Carlos Drummond de Andrade.
Eis me aqui mais uma vez em um cair de tarde.
O verão é iminente, e se prenuncia pelo sol que, apesar do horário já um tanto avançado, ainda está forte o suficiente para iluminar a sala. Com sua luz, permite-me ler o que escrevo.
O que me acompanha e o que me acompanhou o dia todo foi música e uma agradavél leitura.
Neste momento, o que ouço é a voz suave de uma inglesinha chamada Dido. O que leio são as minhas próprias palavras.
No apartamanto permeneci o dia todo só. Exceto por um breve compromisso logo no início da manhã, e alguns telefonemas no decorrer do dia, estou só.
Só com meus pensamentos, porém em intenso contato com o mundo através de músicas e escritos de outros.
São estranhos invadindo meu mundo particular. Estranhos que, estranhamente, recebo com alegria. Talvez porque eles, simplesmente, deixaram de ser estranhos. Fazem parte de mim a música e a literatura. Estranho seria não recebe-los com alegria: estaria negando a mim mesma acolhimento.
O que me é estranho, isso sim, é algo mais palpável. É a minha realidade objetiva. É o que chamo de lar.
Apesar de me sentir adaptada, e adaptar-se ser uma de minhas características mais eminentes, ainda o estranho. Não que o novo endereço não me tenha agradado, ou porque tenha ainda estranhe a posição, por vezes improvisada, de alguns móveis. Nada disso. O que me é estranho é a familiaridade que me ocorre ao pensar no antigo endereço.
Ainda tenho a percepção de sua paisagem, do som estridente que os sinais dos colégios vizinhos a mim faziam toda manhã (e tarde e noite) convidando estudantes a encher ou esvaziar suas salas de aula.
Ainda me ocorre a simpatia com que era recebida pelos antigos porteiros enquanto, os que agora me recebem se mostram indiferentes aos meus cumprimentos.
Me ocorrem tantas outras coisas que devido a sua familiaridade latente tornam-me incapaz de descreve-las.
Pensado & escrito por MARCELA ORTOLAN - 11:47 PM
____________________
Bolsa de Mulher
A porta
A fechadura
A chave
A chave e seus segredos
A chave e a fechadura compartilham de um segredo
A porta intransponível, impossível, separando-me do meu mundo
A chave deve informar o seu segredo à fechadura
A fechadura deve concordar com a chave
A porta, então, e somente então, se abrirá para mim
A porta na sua imensidão não resiste a curiosidade do segredo
A pequenez da chave e da fechadura têm o grande poder de um segredo
A mim, o que resta? Não possuo um segredo
A chave? Sim, eu a possuo!
A chave e seus chaveiros
A chave a tirlintantar na bolsa com seus chaveiros
A bolsa e seus segredos
A mão a desvendar os meandros da bolsa
A imensidão infinita da bolsa faz a mão se perder
A mão
A bolsa
A chave
A fechadura
A porta
Pensado & escrito por MARCELA ORTOLAN - 1:29 AM
____________________
Quarta-feira, Dezembro 17, 2003
"A vida é um milhão de novos começos movidos pelo desafio sempre novo de viver e fazer todo sonho brilhar..." Anônimo
Esvazio as caixas e novamente encho as gavetas.
Lentamente as paredes, até então desconhecidas para mim vão ganhando toques pessoais. Assim vou reconstruindo meu mundo.
Em breve chamarei de lar o que está surgindo entre essas paredes.
Além de objetos coloco neste espaço esperanças de que estreitar os laços de amizade que ligam me às minhas irmãs. É com elas que divido a mesma paisagem.
Lentamente roupas, sapatos, livros e anotações tomam o lugar que a eles destino.
Começo a reconhecer-me neste novo espaço.
Com algumas outras coisas não preciso me reconhecer. Elas simplesmente estão presentes em minha vida.
Agora novas ruas passaram a fazer parte da minha rotina.
Sentirei saudades das flores que outrora enchiam de vida a minha janela.
Pensado & escrito por MARCELA ORTOLAN - 11:44 PM
____________________
Entre compromissos, falas apressadas, caras cansadas, o ruidoso barulho da impressora, telefonemas indicando que as tarefas ainda não terminaram... assim foram as últimas semanas. Casaço é o que meu corpo sente. Não obstante, havia ainda compostos químicos e nomes sem sonoridade que de alguma maneira precisavam ser absorvidos por meu cérebro em frangalhos.
Perdida entre tantas obrigações não percebo a passagem do tempo... no calendário os dias vão passando; frente a minha retina cansada os números vem e vão sem que isso me afete.
É dezembro. Último mês do ano.
A sensasão de tarefa cumprida invade as pessoas nesta época do ano. É hora de renovar a esperança, olhar para trás, soltar um suspiro de alívio e, então, se entregar as comemorações que se multiplicam no fim do ano.
Contudo a sensasão de tarefa cumprida simplesmente não me invade este ano. O que me invade é a angustia de ver o tempo escorrer e eu ainda perdida entre tantas coisas por serem feitas. Coisas que não me pertencem, que me são estranhas, que me são impostas!
Por um momento todas as exaustivas tarefas são suspensas. Ninguém mais fala em prazos, em obrigações.
O que eu vejo agora, são balões, um bolo, alguns amigos muito queridos, e minha cara de surpresa.
Por um momento as únicas coisas que tenho de fazer são conversar e brincar. Minha obrigação é me divertir. E eu me diverto...
Em breve, porém, tudo se acaba. Volto a minhas atividades. A diferença é que agora, a enfeitar a minha cara cansada tenho um sorriso de felicidade e gratidão.
Mais algumas horas de muita tensão e vou, miolagrosamente, vencendo os compromissos.
Porém nada de descanso para mim.
Olho para o lado e o que vejo são caixas cheias e gavetas vazias.
Frente a esta imagem só um pensamento me invade: quando, afinal, terei tempo para mim?
Pensado & escrito por MARCELA ORTOLAN - 7:04 PM
____________________
Domingo, Dezembro 14, 2003
" Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um individuo genial. Industrializou a esperança fazendo-a funcionar no limite da exaustão.
Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Ai entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez com outro número e outra vontade de acreditar que daqui para adiante vai ser diferente."
Carlos Drummond de Andrade
Obrigada meninas... (psicogirls)
Pensado & escrito por MARCELA ORTOLAN - 8:46 AM
____________________
Sábado, Dezembro 13, 2003
"Todo dia ela faz tudo sempre igual/ me sacode as seis horas da manhã..."
Trecho da música Cotidiano do Chico Buarque
No quarto, um sono toma conta do ambiente e me abraça, leva-me consigo para o mundo dos sonhos.
Na sala o telefone toca com sua estridente campainha, me trazendo de volta a realidade àpos cinco horas de intenso convivio com as profundezas da minha mente.
O corpo cambaleante denúncia o recente despertar. Com a voz embaçada digo um "alô", tentando, sem sucesso, disfarçar a minha sonolência.
Do outro lado do telefone alguém pronúncia palavras que minha mente confusa demora a compreender. É um pedido. Na verdade uma ordem soando a um pedido. Uma ordem disfarçada daquele jeito que só as mães conseguem fazer.
São nove e meia da manhã. Desligo o telefone, mas não sem antes ouvir um inesperado e maternal "eu te amo".
Me arrumo para sair, pois é necessário andar muito para cumprir o que acabo de prometer.
Antes porém ligo o rádio na tentativa de espantar a vontade de dormir mais um pouco.
Na rua o que se forma frente as minhas retinas é uma bela e ensolarada manhã de sábado.
Teria sido um bom começo de manhã não fosse a sonolência que ainda se fazia presente.
Também, pudera, o dia anterior terminou apenas as quatro e meia da manhã de hoje. Fora uma noite deliciosa. Em um barzinho várias pessoas, muitos amigos. No pequeno palco em um canto do bar pessoas conhecidas cantavam músicas que, em sua maioria, também eram conhecidas.
As vozes harmoniosas, embaladas por um violão e algum batuque, entoando um eclético repertório faziam com que o som não passasse despercebido. Logo todos estavam cantando e dançando as músicas tocadas. Uma energia deliciosa toma conta do lugar. A música passa a ser o elo de ligação entre todos ali: conhecidos e desconhecidos cantam juntos embaldos pela emoção.
A alegria é visivel no rosto dos presentes. A música só para por insistência do dono do lugar. O que não faltava era animação para mais um bom tempo de festa.
Cumprimentamos as cantoras e deixamos claro para elas o nosso gostinho de "quero mais". Promessas são feitas de que teremos outras oportunidades para saciar nossos desejos músicais.
Sem mais música a embalar-nos, o corpo logo dá sinais de cansaço e fome.
Vamos embora, mas não sem antes parar no Pátio San Miguel para trocar impressões da noite e comer algo.
Alguém diz que esse tipo de programa lhe desperta nostalgia. Nostalgia era uma palavra que, até então, não havia passado por minha cabeça. Cada momento desta noite fora vivido no presente.
A noite terminou com gosto de hortelã, gosto esse que ainda pude sentir em minha boca pela manhã quando fui acordada pelo telefone.
É cedo. Ainda tenho um longo dia pela frente.
"Me sorri um sorriso pontual/ e me beija com a boca de hortelã"
Trecho da música Cotidiano do Chico Buarque
Pensado & escrito por MARCELA ORTOLAN - 1:16 PM
____________________
Sexta-feira, Dezembro 12, 2003
¿Eu acredito que a poesia tenha sido uma vocação, embora não tenha sido uma vocação desenvolvida conscientemente ou intencionalmente. Minha motivação foi esta: tentar resolver, através de versos, problemas existenciais internos. São problemas de angústia, incompreensão e inadaptação ao mundo¿.
Carlos Drummond de Andrade
Na cabeça preocupações se revezam. Uma atrás da outra, elas se revezam a envenenar meu já cansado cérebro. Meus pensamentos não conseguem se concentrar nas muitas ativiades que clamam por atenção. Tento encontrar no sono meu alento. Sim, como não havia pensado nisto antes? Agora me parece lógico que toda essa lerdeza no pensar só pode ser proveniente da noite passada que fora de pouco sono e muito trabalho.
Deito-me na cama com a esperança de que uma ou duas horas de sono tragam de volta a minha inspiração. Qual não é, contudo, a minha decepção ao constatar que, mesmo com todas as condições favoráveis para o seu aparecimento, o sono insiste em furtar-me o descanso. Os pensamentos rodam minha cabeça de uma forma cada vez mais confusa. Estou completamente desamparada. Meu corpo reclama o descanso que a cabeça não quer dar.
O que poderia diminuir o meu desespero, acalmar-me? Com os olhos corro o quarto entulhado de folhas de papel e livros científicos. Entretanto, meus olhos, já habituados com a poluição visual, encontram repouso em um romance que está sobre a comoda. O livro me fora emprestado por uma amiga no final de semana anterior. Um belo exemplar, com certeza. São mais de quatrocentas páginas envoltas por uma capa preta onde pode-se ver duas fotos antigas e, em letras mais claras, lê-se: "Quando Nietzsche chorou". Há muito tempo tenciono ler este livro. Porém, devido a meus compromissos universitários, tenho me furtado deste pequeno prazer prorogando-o para as férias.
Ah, que bom seria poder acolhe-lo por entre as mão sorvendo com os olhos suas frases, deixando que estas tomem conta de meus pensamentos. Horas a fio ficaria eu ali vivendo a vida destes tão intrigantes personagens, permitindo que meus olhos curiosos esquadrinhassem calmamente cada uma de suas páginas.
Todavia sei que ainda não posso me permitir esse prazer. Não tenho todas essas horas para dedicar ao livro. Sei, também, que as primeiras palavras deste me enfeitiçarão e não deixaram que a hitória que me informam abandonem o meu pensamento tão cedo. Tenho sido tão forte. Tão dolorosamente forte. Agora faltam apenas quatro dias e o sufoco estará terminado.
Penso que, talvez por enquanto, a melhor solução não seja introjetar mais pensamentos em minha mente confusa, mas sim, de algum modo, descarrega-los.
As letras vão saindo de meus dedos e informam, a quem lê estas frases, todo o meu dilema.
As idéias agora fluem de uma maneira muito mais clara. Os pensamentos foram partejados e expostos. Me sinto aliviada.
Respiro profundamente.
Constato o quando essa catarse de ideias me foi útil.
Evito olhar para o relógio, este medidor implacável do tempo, que com certeza não traz para mim boas notícias.
Mesmo sem saber a hora exata, sei que tenho de ir. Contudo, não sem antes agradecer-lhes por lerem meu desabafo. Obrigada.
Pensado & escrito por MARCELA ORTOLAN - 9:08 AM
____________________
Quarta-feira, Dezembro 10, 2003
"Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.
Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.
Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio."
Trecho do poema A Flor e a Náusea de Carlos Drummond de Andrade
É quarta-feira. É primavera.
Da mesa onde fica o computador posso observar os tons que um belo pôr-do-sol joga nos predios ao meu redor. Vejo também como ficam as árvores com a iluminação desta hora da tarde. O tom verde das folhas reflete a luz vermelho-amarelada do Sol. Essa mesma cor faz um bonito jogo de luz e sombra nos predios e casas que a minha vista alcança. Vejo também algumas flores. São poucas, porém sua delicadeza é suficiente para deixar terno o coração de quem se põe a observa-las.
Olho mais perto e vejo as minhas próprias flores enfeitando a janela. São flores rústicas. Seus longos ramos cheio de folhas verde-escuras com pequeninas flores cor-de-rosa na ponta estão plantados em um exíguo espaço de terra. Alguns ramos secos denunciam o descuido dos antigos moradores.
É bom poder olhar para o lado e ve-lâs ali. Elas me lembram, após horas em frente a um computador, que a vida continua. Com sua singela beleza são capazes de trazer novamente um sorriso aos meus lábios. Sua rusticidade bucólica faz sentir um leve aperto em meu coração. Conheço esse aperto por saudade. Uma saudade que eu, simplesmente, não sei especificar de onde vem ou qual sua origem. É essa minha ligação antiga com as coisas da terra, o campo, a natureza... ligação tão antiga que já faz parte da minha constituição sendo absolutamente impossível me dissociar dela.
Meus pensamentos fazem com que eu novamente volte o olhar para a janela e perceba que agora o azul claro que antes coloria o céu agora dá lugar a um azul cada vez mais escuro.
As flores da floreira estão refletindo a luz artificial que ilumina a sala e, parcamente, atravessa o vidro da janela.
Isto me lembra que o tempo não para. Já está ficando tarde e ainda tenho muitas atividades para realizar antes de deitar-me e deixar que o sono leve consigo meus pensamentos consientes.
É hora de voltar ao trabalho.
Pensado & escrito por MARCELA ORTOLAN - 9:52 PM
____________________
Terça-feira, Dezembro 09, 2003
"Hoje eu acordei assim/ pesando muito em você/ e nos quilômetros/ que eu terei que caminhar pra te ver/ mas a distância já não é problema/ porque a vontade é maior..." Trecho da música Manhã nas pedras da banda Primos da Cida.
É domingo. Viajo de volta para Londrina. O ônibus demora mais que o habitual para chegar, e o sono simplesmente não chega. Incomumente não cochilo durante a viagem. Desta vez, a paisagem da estrada não chama a minha atenção.
Na cabeça uma música insite em rodar e eu me permito entrar no seu ritmo ponho-me a apreciar a lembrança de seu som e sua melodia. Ela me torna mais próxima a lembrança do meu próximo compromisso.
Rodoviária é onde me encontro agora. Como sempre, a pressa é o que me acompanha. Preciso chegar ao terminal do ônibus urbano. A estrutura da rodoviaria é redonda, não importa o caminho que eu siga sempre chegarei ao meu destino. Porém essa certeza não acaba com as dúvidas de qual seria o melhor caminho a seguir. Qual é o percurso mais curto? Na dúvida vou pelo mesmo conhecido caminho de sempre.
Dois ônibus urbanos e algumas quadras depois chego em casa. O rosto vermelho denuncia a pressa com que trancorri as ruas que separam o ponto de ônibus da minha casa.
Contudo ao chegar em casa percebo que a pressa fora injustificada. Ainda é cedo. Tomo um banho, troco de roupa e vou para sala contar a minha irmã como foi a viagem. Diálogo, esta palavra a muito por nós duas havia sido esquecida. Hoje porém encontro nela disposição para uma boa conversa. Conversamos, rimos, trocamos impressões. Minha alma fica leve com esta conversa. Não só a alma mas também o clima da casa que a muito tempo parecia pesar toneladas.
O assunto termina e eu vou para o quarto deixar em ordem os resquiscios da viagem.
O interfone toca. É hora do show.
O que acontece depois disso eu não sei exatamente como descrever. Música, dança, tudo isso embalado por uma energia muito positiva.
É isso que um show bom representa para mim. Dança, música e energia positiva.
Cantei até quase ficar rouca, e dancei o suficiente para cansar. No entanto, o que eu não senti foi cansaço. Estava anestesiada pela energia do show...
Voltei para casa entoando:
"Vai dar saudade do verão... dessa noite vai!!!" Trecho da música Fiska da banda Primos da Cida.
Pensado & escrito por MARCELA ORTOLAN - 11:35 PM
____________________
É sábado. O fim de semana chegou e trouxe consigo algumas promessas.
Acordo. No relógio os ponteiros marcam dez e meia da manhã. Está abafado. Levanto-me ligo o rádio fazendo com que a música penetre em todos os cantos da casa e inpregne em minha alma. Ligo o chuveiro e deixo que a água molhe meu corpo lavando cada poro para em seguida escorrer pelo ralo levando consigo os requícios do sono.
Da minha boca saem palavras que não são minhas mas estão em uníssono com as que o radio transmite. Enquanto canto faço alguns afazeres domésticos. Mais tarde uma amiga vem a minha casa para fazermos um trabalho de faculdade. Mas por enquanto meus pensamentos ainda estão concentrados no que o rádio me informa.
Lembro me então do cd. Qual não foi a minha surpresa ao verificar que no encarte, logo abaixo de onde o cd estava, haviam algumas palavras "em letras miúdas que ninguém consegue ler"*. Elas me informavam que no cd também haviam fotos e clipes. No rádio continuam a tocar músicas que eu entôo de maneira improvisada, enquanto me distraio a explorar o cd.
Já é passado do meio-dia e, no rádio, o locutor chama a próxima atração. Outra surpresa. Serão entrevistados os integrantes da banda a qual tenho o cd em mãos.
Os entrevistadores serão os próprios ouvintes. O locutor pronuncia a familiar frase: "Linha liberada", e eu, em um ato rápido e impensado, estou ao telefone e do outro lado da linha o locutor, os Primos da Cida, e todos os ouvintes da rádio.
Faço alguns elogios, uma pergunta... fim da ligação. Fico eu, o rádio, onde continuam as perguntas, minha cara de idiota e um pensamento: "preciso parar com está mania de ligar na rádio...".
Toca agora, uma música americana que eu acompanho com os lábios inventando palavras em meu inglês précario na tentavia de preencher a já conhecida melodia.
Preparo material para fazer o trabalho. Recebo minha amiga. Nós estudamos, conversamos... conversamos... conversamos... e o trabalho está pronto. Trocamos mais algumas impressões e ela se vai, me deixando a sós envolvida com os preparativos da viagem.
Estou pronta, mala na mão, saio pela porta e, ao fechar esta deixo para trás o sossego de meu lar para ganhar as incertezas do mundo.
*Trecho da música Sistema da banda Primos da Cida.
Marina, Feliz Aniversário!!
Pensado & escrito por MARCELA ORTOLAN - 6:35 PM
____________________
Segunda-feira, Dezembro 08, 2003
Entardece em Londrina. É sexta feira e o dia todo uma chuva torrencial lavou a cidade, com seus prédios, seus carros, suas árvores e qualquer ser humano que ousou aventurar-se pelas suas ruas.
Acordei indisposta e não fui a aula. Devo admitir que poder ficar em casa em um dia de chuva é algo bastante agradável. Porém, minha indisposição não me permitiu curtir a chuva. Dormi praticamente toda a manhã e uma grande porção da tarde.
Quando finalmente me senti um pouco melhor o ponteiro do relógio já marcava desessete horas. No fim da tarde pude aproveitar para ficar um pouco junto de meus pais que passaram o dia na cidade. A conversa foi, em geral, agradável mas logo eles estavam indo embora e levando consigo a minha irmã mais nova que já estava em férias.
Ficamos, aqui em Londrina, eu e minha outra irmã, que também possiu menos idade que eu. Cada uma fica absolvida com seus afazeres. Ela em seu quarto estudando em uma apostila qualquer de ensino médio, e eu na sala curtindo a minha indisposição e lendo algo.
Estamos naquele momento do dia em que a claridade do sol e a escuridão da noite estão em igualdade de intensidade formando o crepúsculo. Como é belo. Fico pensando se devo ou não acender a luz para continuar a leitura. Quero terminar o texto, porém são tão bonitos os tons que o crepúsculo joga na sala...
O telefone toca. Minha dúvida é interompida pela campainha de som estridente. E uma amiga falando que em alguns minutos ela e mais um amigo passam em minha casa. Troco de roupa, e vou para a frente do computador fazer qualquer coisa enquanto os espero.
Fico feliz com o telefonema. A algum tempo não recebia visitas em minha casa. É gostoso conversar em casa. O clima mais intimista costuma dar o tom a boas conversas. O tipo de conversa que não surge muito comumente em mesas de bar, a não ser, é claro, quando o teor de álcool no sangue já nos tenha feito perder a noção do perigo.
Outra campainha. Agora é o interfone, eles estão subindo. Recebo-os e todos sentamos na sala. Meu amigo trás em suas mãos um presente. É o cd "ao vivo" da banda Primos da Cida. A caixinha do cd é bastante diferente, feita de papel, como se fosse um album. Me lembra os velhos discos de vinil pertencentes ao meu pai, em especial um disco triplo do Ari Barosso.
Fazemos alguns comentarios acerca do capricho com que o álbum foi montado, e logo nos envolvemos por uma gostosa conversa deixando de lado o cd. Conversamos bastante... temos tantas coisas a dizer! Entretanto, o relógio não para e é hora deles se despedirem.
É neste momento em que sozinha me dou conta do cd que fora esquecido durante a conversa.
Fico com ele nas mãos e me ponho a apreciar esse tão esperado presente. É realmente muito bonito. E tem aquele cheiro peculiar de coisa nova. Como eu gosto deste cheiro! Coloco o cd para tocar enquanto folheo o encarte. A qualidade sonora está muito boa, e, o que para mim foi o mais surpreendente, conseguiu captar a energia que embalou o show em que as músicas foram gravadas. Lembrar deste show me deu um novo ânimo.
Já é tarde e o volume do som está devidamente controlado para o horário... após ouvir uma vez todas as vinte e duas músicas que tem no cd, me distraiu em outros afazeres, guardando para o dia seguinte a vontade de ouvir as músicas em alto e bom som e dançar uma a uma.
Recoloco o cd na caixinha com todo o carinho e dou uma rápida saida para encontrar duas amigas que me esperam para conversar pouco, e fazer planos para as férias...
Ah! As tão esperadas férias! É entre risos e doces sonhos que a noite se esvai...
Pensado & escrito por MARCELA ORTOLAN - 12:20 PM
____________________
"Vai dar saudade do Verão... desta noite vai!!!!" Trecho da musica Fiska dos Primos da Cida (ver link)
Pensado & escrito por MARCELA ORTOLAN - 3:48 AM
____________________
Domingo, Dezembro 07, 2003
"Ah se eu fosse marinheiro era eu quem tinha partido/ mas meu coração ligeiro
não se teria partido..." Maresia, na voz de Adriana Calcanhoto
Diferentemente do autor/autora da música, eu sou um marinheiro... normalmente sou eu quem parto... mas meu coração não é tão ligeiro, e demorou para se acostumar com essa vida! Sim, mesmo sendo eu quem parte, meu coração já se partiu de deixar lugares especiais, pessoas especiais...
Mas retomando a nossa viajem, os pés que antes andavam tão apressados, agora repousam acomodados no chão do ônibus que os levará até seu destino. "Viajar, perder paises" diz Fernando Pessoa... minha viajem é mais curta, em pouco mais de uma hora estou no meu destino. No caminha belas paisagens... varios tons de verde se encontram com o azul do céu. Por vezes encontramos alguns aglomerados de casas, alguns dos quais são chamados de cidades e outro não.
A vista é bela e o movimento do ônibus faz um vento bater em meu rosto, o que é muito bem vindo já que o clima está bastante abafado. Essa combinção vento, paisagem, estrada... adormeço... sono rapido e quando acordo já estou chegando. Na rodoviaria reencontro meus pais e minha irmã mais nova. É sempre gostoso rever a familia, apesar de te-lôs visto no dia anterior... Enfim familia reunida, ou quase, e todos vamos para casa conversar conversar, discutir e se desentender... para no instante seguinte estar tudo bem de novo... afinal de contas essa é a dinamica das familias!
E assim foi a minha viajem... mas já está na hora de voltar novamente, viajem curta de um dia... e lá vou eu para a estrada novamente!
Pensado & escrito por MARCELA ORTOLAN - 11:05 AM
____________________
Quando começa uma viajem? Essa pergunta parece simples, porém difícil de precisar onde começa uma viajem...
A viajem pode começar até mesmo antes de se saber o destino... pode-se começar
no simples desejo de se fugir para qualquer lugar, de quebrar a rotina, de
conhecer algo novo... E começa-se a se envolver com o clima da viajem nas
conversas sobre, no arrumar a mala... É hora de por o pé na estrada. Saio de
casa, mala na mão e um mais um bom caminho antes de chegar a rodoviária. Subo
a minha rua em direção ao ponto de ônibus urbano. Passos apressados, com
medo de um atraso. O lotação demora a vir e enquanto isso eu me perco observando
a beleza da cidade, o canteiro central da avenida com suas belas flores, arbustos e
árvores. Os carros que passam sem muita pressa já tendo incorporado o clima do
fim de semana. O céu está nublado, exceto por umas escapadelas do Sol por entre
as nuvens. O lotação chega e eu continuo a minha viajem. Sigo até o terminal
central onde devo pegar outro ônibus até a rodoviária. No terminal uma multidão de pessoas
algumas com pressa, outras nem tanto, e como cada uma anda em seu próprio
ritmo acabo por esbarrar em muitas! Ao chegar no ponto onde pego o segundo
ônibus urbano acontece algo inesperado acontece. Uma batida policial...
A cena era real e próxima, mas ao mesmo tempo parecia distante e irreal...
Os policiais abordam alguns rapazes. A conversa entre eles é bastante ríspida.
Os "suspeitos" são revistados e humilhados os em frente a todos. Contudo
nenhuma irregularidade é averiguada com eles. Os policiais continuam com algumas
perguntas e o clima entre eles que já era tenso, vira uma explosão de agressividade
por parte dos policiais, após uma resposta atravessada de um dos rapazes. Em
um ato repentino o policial batem varias vezes no rapaz sobe os protestos de
todo o publico que ali já se formou para acompanhar a cena. O rapaz é algemado
e colocado no camburão. O policial percebendo a repercussão negativa do fato
volta para-se para algumas pessoas e diz que o rapaz "assaltou ontem e está
gastando hoje". Pela conversa que eles tiveram antes da prisão parece que
realmente o rapaz já tinha ficha na policia como assassino (!) e assaltante.
A própria atitude deles no terminal podia levantar suspeita, porém e toda
essa violência gratuita dos policiais, justo quem trabalha para manter a paz
e evitar a violência! Enquanto o camburão vai embora o ônibus chega. Todos
estão um tanto quanto atordoados com a cena que acabaram de presenciar. No
caminho para o rodoviária ouço discursos inflamados acerca do acontecido.
Alguns defendendo a atitude dos policiais e outros a condenando. Outras pessoas
cada um com seu ponto de vista e sua própria historia com a policia. Chego a
rodoviária e é hora de retomar a minha viajem, que foi tão bruscamente interrompida...
(continua)
"A policia/ matou o estudante/ falou que era bandido/ chamou de traficante/
a justiça/ prendeu o pé rapado/ soltou o deputado/ e absolveu os PMs de Vigário/
Até quando você vai levando/ Porrada! Porrada!/ Até quando vai ficar sem
fazer nada/ Até quando você vai levando/ Porrada! Porrada! Até quando vai ser
saco de pancada...Muda! Que quando a gente muda a gente anda pra frente/ a
gente muda o mundo na mudança da mente/ e quando agente manda ninguém manda
na gente/ na mudança de postura não há mal que não se mude nem doença sem
cura na mudança de atitude agente fica mais seguro/ na mudança do presente a
gente molda o futura/ até quando você vai levando porrada?/ até quando vai
ficar sem faze nada?/ até quando vai ficar de saco de pancada?"
Trecho da música Até quando do Gabriel O Pensador.
Pensado & escrito por MARCELA ORTOLAN - 9:48 AM
____________________
Sábado, Dezembro 06, 2003
"Abraçar a vida e viver com paixão.
Perder com classe e vencer com ousadia,
pois o triunfo pertence a quem mais se atreve.
E a vida é muito para ser insignificante."
(Charles Chaplin)
Pensado & escrito por MARCELA ORTOLAN - 12:19 AM
____________________
Sexta-feira, Dezembro 05, 2003
"Um dia de chuva é bom para gente comprar livros de poemas... quem perguntar porque, de nada lhe adianta comprar um livro de poemas..." Mario Quintana
Chove em um belo e grande jardim... passos apressados tentando escapar da chuva que insiste em molhar não somente as folhas das arvores mas também
as roupas dos transeuntes. Pensar que alguns momentos antes minha vontade era a de jogar longe a sobrinha e tomar um delicioso banho de chuva, mas agora tenho outro objetivo.
O ar com aquele cheiro característico de chuva em contato com a terra deixa agradável a passagem de todos.
A chuva aperta e felizmente chego ao meu destino. Meus passos até ai foram guiados pela frase do Mario Quintana acima escrita. Na biblioteca
dirijo-me até a estante onde se encontram os livros de literatura brasileira. Escolho alguns livros do Carlos Drummond de Andrade, e deixo me absorver
pela leitura. É momento de vivenciar a poesia, deixar os sentimentos à flor da pele para melhor absorver cada palavra. A chuva continua caindo lá fora.
O tempo se esvai. É preciso ir. Fecho com pesar os livros, e saio novamente ao jardim. A chuva cessou, e alguns raios de sol passam por entre as folhas
fazendo um belo fim de tarde. E eu me deixo absorver novamente pelas coisas do mundo.
Pensado & escrito por MARCELA ORTOLAN - 10:49 AM
____________________
Quarta-feira, Dezembro 03, 2003
A crônica que foi postado abaixo é um texto da Clarice Lispector. Esse texto não é muito conhecido, por isso o coloquei aqui, gostaria que mais gente pudesse ter acesso a ele. Eu li a primeira vez este texto no de 2000 quando ainda estava no terceiro ano do ensino médio. Depois disso fiquei três anos procurando-o. Só fui acha-lo no inicio deste ano. Sempre fui apaixonada por leitura. Quando leio um texto eu entro nele... vivo ele. Quando ¿vivenciei¿ o texto, este provocou em mim uma angustia muito grande. Porém, com ele eu aprendi muito. Uma verdadeira lição de amizade. Com este texto eu pude aprender o poder do silêncio. Aquele silêncio em que a simples presença tem tamanha intensidade que por vezes as palavras se fazem desnecessárias, ou, mais do que isso, se tornam uma comunicação antiquada, uma comunicação que não comporta tanta amizade. Gostaria que vocês lessem a crônica. Mas só a leiam quando estiverem com vontade... se possível, gostaria que quando vocês lessem-na comentassem, ou, então entrassem em contato comigo... quero saber o que vocês acharam dela... gostaria de saber se essa crônica só afetou a mim ou se ela afeta a vocês também. Boa leitura a todos, espero que vocês consigam vivenciar o silêncio dos personagens pela genial linguagem de Clarice. Só lhes peço mais uma coisa... façam uma leitura sincera, tão sincera quanto à amizade destes dois rapazes...
Pensado & escrito por MARCELA ORTOLAN - 2:41 AM
____________________
Uma Amizade Sincera
Não é que fôssemos amigos de longa data. Conhecemo-nos apenas no último ano da escola. Desde esse momento estávamos juntos a qualquer hora. Há tanto tempo precisávamos de uma amigo que nada havia que não confiássemos um ao outro. Chegamos a um ponto de amizade que não podíamos mais guardar um pensamento: um telefonava logo ao outro, marcando encontro imediato. Depois da conversa, sentíamo-nos tão contentes como se nos tivéssemos presenteado a nós mesmos. Esse estado de comunicação contínua chegou a tal exaltação que, no dia em que nada tínhamos a nos confiar, procurávamos com alguma aflição um assunto. Só que o assunto havia de ser grave, pois em qualquer um não caberia a veemência de uma sinceridade pela primeira vez experimentada.
Já nesse tempo apareceram os primeiros sinais de perturbação entre nós. Às vezes um telefonava, encontrávamo-nos, e nada tínhamos a nos dizer. Éramos muito jovens e não sabíamos ficar calados. De início, quando começou a faltar assunto, tentamos comentar as pessoas. Mas bem sabíamos que já estávamos adulterando o núcleo da amizade. Tentar falar sobre nossas mútuas namoradas também estava fora de cogitação, pois um homem não falava de seu amores. Experimentávamos ficar calados - mas tornávamo-nos inquietos logo depois de nos separarmos.
Minha solidão, na volta de tais encontros, era grande e árida. Cheguei a ler livros apenas para poder falar deles. Mas uma amizade sincera queria a sinceridade mais pura. À procura desta, eu começava a me sentir vazio. Nossos encontros eram cada vez mais decepcionantes. Minha sincera pobreza revelava-se aos poucos. Também ele, eu sabia, chegara ao impasse de si mesmo.
Foi quando, tendo minha família se mudado para São Paulo, e ele morando sozinho, pois sua família era do Piauí, foi quando o convidei a morar em nosso apartamento, que ficara sob a minha guarda. Que rebuliço de alma. Radiantes, arrumávamos nossos livros e discos, preparávamos um ambiente perfeito para a amizade. Depois de tudo pronto - eis-nos dentro de casa, de braços abanando, mudos, cheios apenas de amizade.
Queríamos tanto salvar o outro. Amizade é matéria de salvação.
Mas todos os problemas já tinham sido tocados, todas as possibilidades estudadas. Tínhamos apenas essa coisa que havíamos procurado sedentos até então e enfim encontrado: uma amizade sincera. Único modo, sabíamos, e com que amargor sabíamos, de sair da solidão que um espírito tem no corpo.
Mas como se nos revelava sintética a amizade. Como se quiséssemos espalhar em longo discurso um truísmo que uma palavra esgotaria. Nossa amizade era tão insolúvel como a soma de dois números: inútil querer desenvolver para mais de um momento a certeza de que dois e três são cinco.
Tentamos organizar algumas farras no apartamento, mas não só os vizinhos reclamaram como não adiantou.
Se ao menos pudéssemos prestar favores um ao outro. Mas nem havia oportunidade, nem acreditávamos em provas de uma amizade que delas não precisava. O mais que podíamos fazer era o que fazíamos: saber que éramos amigos. O que não bastava para encher os dias, sobretudo as longas férias.
Data dessas férias o começo da verdadeira aflição.
Ele, a quem eu nada podia dar senão minha sinceridade, ele passou a ser uma acusação de minha pobreza. Além do mais, a solidão de um ao lado do outro, ouvindo música ou lendo, era muito maior do que quando estávamos sozinhos. E, mais que maior, incômoda. Não havia paz. Indo depois cada um para seu quarto, com alívio nem nos olhávamos.
É verdade que houve uma pausa no curso das coisas, uma trégua que nos deu mais esperanças do que em realidade caberia. Foi quando meu amigo teve uma pequena questão com a Prefeitura. Não é que fosse grave, mas nós a tornamos para melhor usá-la. Porque então já tínhamos caído na facilidade de prestar favores. Andei entusiasmado pelos escritórios de conhecidos de minha família, arranjando pistolões para meu amigo. E quando começou a fase de selar papéis, corri por toda a cidade - posso dizer em consciência que não houve firma que se reconhecesse sem ser através de minha mão.
Nessa época encontrávamo-nos de noite em casa, exaustos e animados: contávamos as façanhas do dia, planejávamos os ataques seguintes. Não aprofundávamos muito o que estava sucedendo, bastava que tudo isso tivesse o cunho da amizade. Pensei compreender por que os noivos se presenteiam, por que o marido faz questão de dar conforto à esposa, e esta prepara-lhe afanada o alimento, por que a mãe exagera nos cuidados ao filho. Foi, aliás, nesse período que, com algum sacrifício, dei um pequeno broche de ouro àquela que é hoje minha mulher. Só muito depois eu ia compreender que estar também é dar.
Encerrada a questão com a Prefeitura - seja dito de passagem, com vitória nossa - continuamos um ao lado do outro, sem encontrar aquela palavra que cederia a alma. Cederia a alma? mas afinal de contas quem queria ceder a alma? Ora essa.
Afinal o que queríamos? Nada. Estávamos fatigados, desiludidos.
A pretexto de férias com minha família, separamo-nos. Aliás ele também ia ao Piauí. Um aperto de mão comovido foi o nosso adeus no aeroporto. Sabíamos que não nos veríamos mais, senão por acaso. Mais que isso: que não queríamos nos rever. E sabíamos também que éramos amigos. Amigos sinceros.
Clarice Lispector
Pensado & escrito por MARCELA ORTOLAN - 12:18 AM
____________________
Terça-feira, Dezembro 02, 2003
Um poema
Quero um poema
que fale sobre a vida
e a arte de vive-la.
Quero um poema
em que cada palavra
seja um lindo sorriso
e que cada entrelinha
seja um profundo olhar
de compreenção.
Quero um poema
em que cada ponto
indique um fim.
E que cada nova estrofe
indique um começo,
porém de uma maneira
em que o começo só seja
compreendido depois que
se souber do fim anterior.
Quero um poema
que fale de amizade,
porém nesta estrofe
não posso por um ponto
final... nesta eu colocarei
apenas reticencias... pois
as amizades mudam,
mas nunca acabam....
Este poema não precisa
ter um final feliz.
Até por que ele
fala de uma vida que
não se acabou...
Este poema fala de
uma vida em construção.
Quero um poema.
Um simples, porém
belo poema,
em que cada frase
seja uma pequena
surpresa. Não quero
um poema sério.
Quero um poema
que traga alegria
aos que o lêem.
Marcela Ortolan
25/11/2003
Pensado & escrito por MARCELA ORTOLAN - 11:43 PM
____________________
Alguns Pensamentos by _Maga
*Freqüência dos posts: Os posts deste blog são atualizados uma vez por semana, geralmente aos domingos
*Pensante:
Marcela Ortolan
*Nasceu em:
Pato Branco-Pr 14/12/1983
*Morou em:
Mariópolis-Pr (até 02/1997); Pato Branco-Pr (até 12/1999); Morrinhos-Go(até 02/2001); Goiania-Go(até 03/2001)Passou temporadas em Mauá da Serra-Pr (entre 10/2002 e 06/2004) e Xanxerê-Sc (entre 06/2004 e 04/2005) e Ponta Grossa-Pr (entre 04/2005 e 10/2006).
*Reside em:
Londrina-Pr
*Ocupação:
Psicologa e aprendiz da vida...
E-mail sigopalavras@hotmail.com
[ blogs que leio ]
Aécio
Ah, é?
Alê PDC
Alessandro Martins
Amanda
Anonimo_Incognito
Antigas Ternuras
Bic Azul
Bloco de Notas
Blogalizando
Carlos Muzilli
Carlos Rohrbacher
Catatau
Domingos Pellegrini
Escritos Humanos
Fernando Blues Borghi
Gabriel Ruiz
Garota Bossa Nova
Girando pelo Mundo
Invasão Bárbara
Juju
l. rafael noli
MalocabilY - vc tem pouco tempo pra ler
Márcio Pimenta
Meandros
Mocreias
Nilzabeth
Pedrita
Pensar Enlouquece, Pense Nisso
Polaco da Barreirinha
PsiqueKa
Quase-Secreto
Robson Brino Faggiani
Sensivel Desafio
SickMia
Thahy
Tiago de Man
Transmimentos de Pensações
The Mailman
Universo Anárquico
Without a trace
[ sites ]
Adriana Calcanhotto
Blogger
Paulo Leminsk
PhD Comics
Primos da Cida
Rio Body Count
TemPoemas
UEL
Vinicius de Moraes
Arquivo
Arquivo
Créditos
Blogger Brasil