Domingo, Julho 25, 2004
Por fim acabou.
O muro que insistia em me separar de mim caiu. Todas as torturantes tarefas necessárias para que isso acontecesse foram realizadas. A provação foi grande, mas, por fim, acabou.
Agora sim: livre para voar.
Contudo o que resta de mim é um monte de fiapos presos ao chão e sem forças para nem, ao menos, olhar ao céu!
Ah, a alma! Sim a alma está livre. Liberdade... pelo menos é o que deveria estar sentindo. Mas o corpo, essa couraça de músculos tensos, a prende como que em uma jaula. Músculos tensos? Mas e o muro? Este não havia caído? Sim caiu. Entretanto o corpo tão acostumado à dor já não consegue mais relaxar, muito menos deixar a alma solta para sonhar...
Há tanto tempo longe de mim... afinal quem está vivendo a vida que deveria sem minha?
Sem forças para encontrar uma resposta fico parada, vendo a liberdade passar, e esperando mais ordens, novas tarefas... pois estas, ah, estás não tardaram por vir!
Os ombros suportam o mundo
Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.
Poesia de Carlos Drummond de Andrade
Pensado & escrito por MARCELA ORTOLAN - 10:12 PM
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Sábado, Julho 24, 2004
Sentada à luz do Sol em um começo de tarde enquanto o vento gelado brinca a embaraçar meus cabelos. Apos muito tempo estou em um raro momento de tranqüilidade, sozinha em um canto do imenso campus tento refletir sobre tudo que aconteceu nos últimos meses.
Vejo meu rosto assustado.
Medo foi o que senti sendo exigida para além das minhas possibilidades e vendo todos correndo sem direção precisa, mas sempre em frente, cada vez mais próximos ao precipício.
Nos semestres anteriores o que eu via quando olhava para meus amigos eram rostos cansados. Hoje, as caras cansadas continuam aqui, só que agora vêm acompanhadas de corpos doentes.
O que vejo são pessoas ficando doentes, sucumbindo ao cansaço, trazendo consigo a morte como uma possibilidade para escapar dos problemas.
Por pouco, tão pouco, outros humanos nos submetem a tarefas e mais tarefas que realizamos na tentativa de provar nosso valor. E nós... nós nos submetemos.
Levamos uma vida burocrática: o presente não importa, o importante é que ele tenha sido planejado e depois possa ser documentado em forma de relatório.
E burocraticamente eu vivo assinando embaixo das arbitrariedades a mim imfligidas.
Pensado & escrito por MARCELA ORTOLAN - 12:26 AM
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Terça-feira, Julho 20, 2004
Hoje, 20 de julho, é o dia do amigo. Apesar da data arbitraria é esta uma ótima oportunidade para voltar minha atenção para esta figura tão importante para mim, companheiro de todas as horas e que por estar tão próximo esquecemos de lhe agradecer pelo bem que sua companhia nos faz...
A todos os meus amigos: muito obrigada!
Trago para todos um conto da escritora Clarice Lispector. Aprendi muito sobre amizade com este conto. Por isso ele está sendo publicado pela segunda vez neste blog. Este foi o segundo texto publicado neste espaço e gostaria que vocês lessêm com carinho e comentassem o que acharam...
Sem mais demoras,
um grande abraço a todos, meus amigos.
Uma Amizade Sincera
Não é que fôssemos amigos de longa data. Conhecemo-nos apenas no último ano da escola. Desde esse momento estávamos juntos a qualquer hora. Há tanto tempo precisávamos de uma amigo que nada havia que não confiássemos um ao outro. Chegamos a um ponto de amizade que não podíamos mais guardar um pensamento: um telefonava logo ao outro, marcando encontro imediato. Depois da conversa, sentíamo-nos tão contentes como se nos tivéssemos presenteado a nós mesmos. Esse estado de comunicação contínua chegou a tal exaltação que, no dia em que nada tínhamos a nos confiar, procurávamos com alguma aflição um assunto. Só que o assunto havia de ser grave, pois em qualquer um não caberia a veemência de uma sinceridade pela primeira vez experimentada.
Já nesse tempo apareceram os primeiros sinais de perturbação entre nós. Às vezes um telefonava, encontrávamo-nos, e nada tínhamos a nos dizer. Éramos muito jovens e não sabíamos ficar calados. De início, quando começou a faltar assunto, tentamos comentar as pessoas. Mas bem sabíamos que já estávamos adulterando o núcleo da amizade. Tentar falar sobre nossas mútuas namoradas também estava fora de cogitação, pois um homem não falava de seu amores. Experimentávamos ficar calados - mas tornávamo-nos inquietos logo depois de nos separarmos.
Minha solidão, na volta de tais encontros, era grande e árida. Cheguei a ler livros apenas para poder falar deles. Mas uma amizade sincera queria a sinceridade mais pura. À procura desta, eu começava a me sentir vazio. Nossos encontros eram cada vez mais decepcionantes. Minha sincera pobreza revelava-se aos poucos. Também ele, eu sabia, chegara ao impasse de si mesmo.
Foi quando, tendo minha família se mudado para São Paulo, e ele morando sozinho, pois sua família era do Piauí, foi quando o convidei a morar em nosso apartamento, que ficara sob a minha guarda. Que rebuliço de alma. Radiantes, arrumávamos nossos livros e discos, preparávamos um ambiente perfeito para a amizade. Depois de tudo pronto - eis-nos dentro de casa, de braços abanando, mudos, cheios apenas de amizade.
Queríamos tanto salvar o outro. Amizade é matéria de salvação.
Mas todos os problemas já tinham sido tocados, todas as possibilidades estudadas. Tínhamos apenas essa coisa que havíamos procurado sedentos até então e enfim encontrado: uma amizade sincera. Único modo, sabíamos, e com que amargor sabíamos, de sair da solidão que um espírito tem no corpo.
Mas como se nos revelava sintética a amizade. Como se quiséssemos espalhar em longo discurso um truísmo que uma palavra esgotaria. Nossa amizade era tão insolúvel como a soma de dois números: inútil querer desenvolver para mais de um momento a certeza de que dois e três são cinco.
Tentamos organizar algumas farras no apartamento, mas não só os vizinhos reclamaram como não adiantou.
Se ao menos pudéssemos prestar favores um ao outro. Mas nem havia oportunidade, nem acreditávamos em provas de uma amizade que delas não precisava. O mais que podíamos fazer era o que fazíamos: saber que éramos amigos. O que não bastava para encher os dias, sobretudo as longas férias.
Data dessas férias o começo da verdadeira aflição.
Ele, a quem eu nada podia dar senão minha sinceridade, ele passou a ser uma acusação de minha pobreza. Além do mais, a solidão de um ao lado do outro, ouvindo música ou lendo, era muito maior do que quando estávamos sozinhos. E, mais que maior, incômoda. Não havia paz. Indo depois cada um para seu quarto, com alívio nem nos olhávamos.
É verdade que houve uma pausa no curso das coisas, uma trégua que nos deu mais esperanças do que em realidade caberia. Foi quando meu amigo teve uma pequena questão com a Prefeitura. Não é que fosse grave, mas nós a tornamos para melhor usá-la. Porque então já tínhamos caído na facilidade de prestar favores. Andei entusiasmado pelos escritórios de conhecidos de minha família, arranjando pistolões para meu amigo. E quando começou a fase de selar papéis, corri por toda a cidade - posso dizer em consciência que não houve firma que se reconhecesse sem ser através de minha mão.
Nessa época encontrávamo-nos de noite em casa, exaustos e animados: contávamos as façanhas do dia, planejávamos os ataques seguintes. Não aprofundávamos muito o que estava sucedendo, bastava que tudo isso tivesse o cunho da amizade. Pensei compreender por que os noivos se presenteiam, por que o marido faz questão de dar conforto à esposa, e esta prepara-lhe afanada o alimento, por que a mãe exagera nos cuidados ao filho. Foi, aliás, nesse período que, com algum sacrifício, dei um pequeno broche de ouro àquela que é hoje minha mulher. Só muito depois eu ia compreender que estar também é dar.
Encerrada a questão com a Prefeitura - seja dito de passagem, com vitória nossa - continuamos um ao lado do outro, sem encontrar aquela palavra que cederia a alma. Cederia a alma? mas afinal de contas quem queria ceder a alma? Ora essa.
Afinal o que queríamos? Nada. Estávamos fatigados, desiludidos.
A pretexto de férias com minha família, separamo-nos. Aliás ele também ia ao Piauí. Um aperto de mão comovido foi o nosso adeus no aeroporto. Sabíamos que não nos veríamos mais, senão por acaso. Mais que isso: que não queríamos nos rever. E sabíamos também que éramos amigos. Amigos sinceros.
Clarice Lispector
Pensado & escrito por MARCELA ORTOLAN - 11:09 PM
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Terça-feira, Julho 13, 2004
Londrina está respirando música.
É tempo de festival e a cidade está ainda mais encantadora. Isso me faz parar para refletir o que a música tem em si que a torna tão especial para mim.
É difícil explicar algo que sinto muito mais com a alma que com o cérebro...
Existem coisas que estão presentes em vários elementos do mundo, mas que a música me faz sentir com uma intensidade muito maior.
Uma delas é a fugacidade das coisas. A música é fugaz. As notas, em seqüência, uma atrás da outra fazendo de cada som único. A música é imaterial. A fugacidade é a sua matéria. É também parte de sua beleza.
Não se retêm a música.
Sem o ar não há o som como o conhecemos. O som se confunde com o ar. E há algo mais livre que o ar? Talvez por isso a música envolve em liberdade tudo em que toca.
Música é leveza. Enche a alma e a deixa livre para sonhar.
A música é ar, é fugida, é liberdade... música é sonho...
Uma vida com música é uma vida muito mais bela...
"E que este seja o meu canto e o escutem os surdos de carinho e de piedade; e que ele vibre com um sino nos ouvidos dos falsos apóstolos dos falsos apóstatas; pois eu sou o homem, ser de poesia, portador do segredo e sua incomunicabilidade - e o meu largo canto vibra acima dos ócios e ressentimentos, das intrigas e vinganças, nos espaços infinitos...". Frase retirada da crônica "Uma viola-de-amor" de Vinicios de Moraes.
Pensado & escrito por MARCELA ORTOLAN - 12:11 AM
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Domingo, Julho 04, 2004
As coisas existem e estão ai
para serem
faladas,
ouvidas,
sentidas,
e,
por fim,
se der vontade,
escritas.
Pensado & escrito por MARCELA ORTOLAN - 2:39 PM
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Alguns Pensamentos by _Maga
*Freqüência dos posts: Os posts deste blog são atualizados uma vez por semana, geralmente aos domingos
*Pensante:
Marcela Ortolan
*Nasceu em:
Pato Branco-Pr 14/12/1983
*Morou em:
Mariópolis-Pr (até 02/1997); Pato Branco-Pr (até 12/1999); Morrinhos-Go(até 02/2001); Goiania-Go(até 03/2001)Passou temporadas em Mauá da Serra-Pr (entre 10/2002 e 06/2004) e Xanxerê-Sc (entre 06/2004 e 04/2005) e Ponta Grossa-Pr (entre 04/2005 e 10/2006).
*Reside em:
Londrina-Pr
*Ocupação:
Psicologa e aprendiz da vida...
E-mail sigopalavras@hotmail.com
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